domingo, 22 de novembro de 2009

Poemas



A FLOR



Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.

Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção , outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.

Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.

Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!

As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!

Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!



ODE A FERNANDO PESSOA



Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal

tu foste de verdade a voz de Portugal

e não foste tu!

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.

De verdade e de feito só não foste tu.

A Portugal, a voz vem-lhe sempre

depois da idade

e tu quiseste aceitar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje.

Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz

de Portugal

o teu sonho de ti

o teu sonho dos portugueses

só sonhado por ti.

Tu sonhaste a continuação do sonho português

somados todos os séculos de Portugal

somados todos os vários sonhos portugueses

tu sonhaste a decifração final

do sonho de Portugal

e a vida que desperta depois do sonho

a vida que o sonho predisse.

Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal

tu foste de verdade a voz de Portugal

e não foste tu!

Tu ficaste para depois

e Portugal também.

Tu levaste empunhada no teu sonho

a bandeira de Portugal

vertical

sem perder pra nenhum lado

o que não é dado aos portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa.

Nesta nossa querida terra onde ninguém

a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo

que é a maneira de acabar com os partidos

e de ficar talvez partido de Portugal!

mas não ainda talvez Portugal!



Portugal fica para depois

e os portugueses também

como tu.




ESPERAÇA

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O retrato de Pessoa


Retrato de Pessoa

Seis anos antes da sua morte, Almada quis homenagear com este quadro, aquele que foi um dos seus melhores companheiros.

Pintura a óleo de magnífica beleza, representa Fernando Pessoa, sentado numa mesa de café. Diante de si, sobre a mesa, tem os dois números de Orpheu, uma bica e um recipiente de açúcar. A mão esquerda segura um cigarrilha (que o revela canhoto) e a outra mão segura uma folha preenchida pela sombra que cai sobre parte da mesa. Com a pena imóvel sobre a folha de papel em branco, Pessoa parece fazer uma pausa, concentrando-se em algo no seu horizonte. O seu chapéu, laço e fato negros contrastam com o soberbo vermelho envolvente e com a gritante luz que percorre parte dos mosaicos do chão, dispostos em losangos.

Este quadro, à maneira do interseccionismo, sobrepõe luz sobre sombras ou vice-versa, criando intersecções sobre a mesa e a parede.

A engomadeira


Uma das obras-primas literárias de Almada, redigida em 7 de Janeiro de 1915. É também ela, juntamente com Saltimbancos, uma obra interseccionista, pois tal como diz o autor no seu prefácio: ... interseccionei evidentes aspectos da desorganização e descarácter lisboetas.

A personagem principal é uma jovem empregada de uma engomadoria. Muito ingénua vai deixar que sua mãe a deixe à mercê de um burguês casado. Este burguês monta-lhe um quarto onde se dão as cenas mais mirabolantes de toda a obra: ligações sexuais da engomadeira com varinas, com um anão deformado e outros; as relações conflituosas com a esposa do burguês e o suicídio da mãe.

A Engomadeira revela uma característica confusão de imagens e um baralhar de descrições ambientais com expressionismo e até surrealismo. Mas as coisas sexuais nunca se degradam do obsceno até à mera e excitante pornografia: Almada trata-as com uma inventividade e uma rítmica obsessividade que as transfigura em verdadeira poesia (in História Ilustrada das Grandes Literaturas - Literatura Portuguesa VIII, 1ª edição, 2º Volume, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1973, p. 692).

Corpo e Alma do almada




Era filho de António Lobo de Almada Negreiros Boff, um tenente de cavalaria que foi administrador do Concelho de São Tomé e fundador de diversos jornais. Uma parte da sua infância foi passada em São Tomé e Príncipe, terra natal da mãe, Elvira Freire Sobral Bristot.

Depois da morte da mãe, em 1896, foi viver em Portugal; nesta altura, em 1900, o pai é nomeado encarregado do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris, deixando os filhos José e António ao cuidado dos jesuítas no Colégio de Campolide.

Em 1911, após a extinção do Colégio de Campolide dos Jesuítas e uma breve passagem pelo Liceu de Coimbra, José entra para a Escola Internacional de Lisboa. Nesta escola, consegue um espaço onde irá desenvolver o seu trabalho, publicando, ainda nesse ano, o seu primeiro desenho na revista A Sátira. Publica também o jornal manuscrito A Paródia, onde é o único redactor e ilustrador.

Em 1913, apresenta, na Escola Internacional de Lisboa, a sua primeira exposição individual, composta de 90 desenhos; aqui trava conhecimento com Fernando Pessoa, com quem edita a Revista Orpheu, juntamente com Mário de Sá Carneiro.

Júlio Dantas, médico, poeta, jornalista e dramaturgo, é a maior figura da intelectualidade da época e afirma que a revista é feita por gente sem juízo. Irónico, mordaz, provocador mesmo, Almada responde com o Manifesto Anti-Dantas, onde escreve: "…uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração! Morra o Dantas, morra! Pim!"

O manifesto teve algum impacto no meio artístico; é tempo de mudar as mentalidades e a sociedade, e Almada fá-lo como poucos, atacando a cultura burguesa instituída e os seus representantes ao mais alto nível.


Em 1917, escreve a novela A Engomadeira.

Em 1919, vai viver para Paris, onde exerce diversas actividades e escreve a Histoire du Portugal par coeur. Em Paris, fica apenas cerca de um ano e, quando regressa, vai colaborar com António Ferro, tendo inclusivamente desenhado a capa do livro deste, Arte de Bem Morrer. Faz também as capas da revista Presença, números 47 e 54.

Em 1927, volta a deixar Portugal, desta vez para Espanha, onde, além de colaborar com diversas revistas, escreve El Uno, Tragédia de la Unidad, obra dedicada à pintora Sarah Afonso, com quem viria a casar em 1934, já após o seu regresso a Portugal.

Em Portugal, vigora já o Estado Novo, e Almada, apoiante das ideias fascistas por influência do Futurismo italiano, começa a ser solicitado para colaborar com as grandes obras do Estado. O Secretariado da Propaganda Nacional – SPN, encomenda-lhe o cartaz de apelo ao voto na nova constituição; o mesmo SPN irá organizar mais tarde a exposição Almada – Trinta Anos de Desenho, convidando-o para se apresentar na exposição Artistas Portugueses, no Rio de Janeiro, em 1942.

Segundo refere Fernando Dacosta na sua obra Máscaras de Salazar (Lisboa, 2002), Almada Negreiros venerava o ditador António de Oliveira Salazar, Presidente do Conselho. Num espectáculo a que este assistiu no Teatro de S. Carlos, em Lisboa, Almada fez questão de o cumprimentar em pessoa. Salazar, que não simpatizava particularmente com ele, limitou-se a perguntar, em tom enfadado: «É o Sr. Almada?», e Almada Negreiros respondia, subservientemente: «Sou sim, Senhor Presidente. Muita honra, Senhor Presidente.»

Para a apreciação da controversa figura de Almada Negreiros, é útil recordar o seu seguinte escrito, igualmente citado por Fernando Dacosta: «Portugal é um país de pretos [...]. Portugal, uma resultante de todas as raças do mundo, nunca conseguiu a vantagem de um cruzamento útil porque as raças belas isolaram-se por completo. É preciso criar a adoração dos músculos, é preciso educar a mulher portuguesa na sua verdadeira missão de fêmea para fazer homens. Fazei a Apoteose dos Vencedores, seja qual for o sentido, basta que sejam vencedores. Ajudai a morrer os vencidos. Portugal não tem ódios, ora uma raça sem ódios é uma raça desvirilizada.» Note-se que o autor destas afirmações – que, sem exagero, podemos considerar evocadoras do ideário nazi – tinha sangue negro (por parte da mãe).

O SPN viria ainda a atribuir a Almada Negreiros o Prémio Columbano pela sua tela intitulada Mulher.

A partir daqui, Almada dedica-se principalmente ao desenho e à pintura: pinta os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima, que o público, agarrado às tradições, não aprecia; pinta o conhecido retrato de Fernando Pessoa, os painéis das gares marítimas de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos, pelas quais recebe o Prémio Domingos Sequeira; pinta o Edifício da Águas Livres e frescos na Escola Patrício Prazeres; pinta as fachadas dos edifícios da Cidade Universitária e faz tapeçarias para o Tribunal de Contas e para o Palácio da Justiça de Aveiro, entre muitos outros.

Tendo colaborado tanto com o Estado Novo que a muita gente causou estranheza, Almada não deixaria de escrever: "As construções do Estado multiplicam-se, porém, as paredes estão nuas como os seus muros, como um livro aberto sem nenhuma história para o povo ver e fixar".

Em 1954, pinta o célebre retrato de Fernando Pessoa.


Os seus últimos trabalhos, já com 75 anos, são o Painel Começar na Fundação Calouste Gulbenkian e os frescos da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Pinta também o seu célebre quadro «as mulheres amam-se» que apresenta duas mulheres a acariciarem as vaginas umas das outras, e tem como fundo um bonito campo em S. Tomé.

Almada Negreiros morre em 14 de Junho de 1970, de falha cardíaca, no mesmo quarto do Hospital de São Luís dos Franceses em que também tinha morrido Fernando Pessoa.